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8月29日 Somos feiosSomos feios
Como é possível uma pessoa dizer a outra que ficou cega há 3 meses, que pode continuar a usar o telemóvel desde que saiba onde estão as teclas do 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 0… pois foi dito mesmo assim… a frio.
Depois cola um sorriso parvo de orelha a orelha como se tivesse dito a coisa mais inteligente do mundo e conta este episódio com uma sensação de vitória, porque até deu uma ideia nova a um invisual recente.
Será que aquela pessoa se lembrou, que possivelmente quem ficou cego há tão pouco tempo ainda não tenha tido tempo suficiente para saber onde estão as coisas?
Será que se lembrou que talvez essa pessoa que está agora cega, ainda nem saiba o que vai fazer à vida, já que deixou de ver tudo à volta e passou a viver na escuridão?
Provavelmente ainda deve andar a contar os passos em casa para não tropeçar num móvel. Ainda deve ter algum (ou muito) receio de andar na rua sozinha, porque simplesmente tem de reaprender tudo do início, com a diferença que tem de saber fazer tudo às escuras.
Alguém já tentou descascar uma batata com os olhos fechados? Alguém já tentou subir ou descer uma escada com os olhos fechados?
Tarefas simples para que tem visão.
Fiquei brutalmente chocada quando ouvi isto, já que outras coisas atrozes que se fazem por este planeta são tão imensamente grandes que não cabem no meu entendimento.
Ninguém está livre de dizer umas bacoradas, todos temos momentos menos felizes no que dizemos ou fazemos.
Às vezes somos tão feios uns com os outros.
Beijo no coração.
Ana T. 29 Ago. 2009
8月16日 As palavras de 100 anosNuma história com mais de 100 anos, onde o tempo se desloca numa espiral infinita e hipnotiza aqueles que lêem o livro, onde as casas começam numa mistura de cor de adobe com o verde das folhas de bananeira, para se tornarem brancas e depois vermelhas e azuis para passarem ao branco novamente e outra vez azuis e vermelhas e que no fim se desfazem num pó tão fino e insustentável como o céu, onde os desamores felizes e os amores infelizes se repetem numa cadência demente, onde há bisavós de catorze anos e mães de 140 anos, onde as nuvens desabam num lamento furioso e rebelde para dar lugar a uma aridez de coração, alma e paisagem, donde os pássaros fogem sem olharem para trás com receio de se transformarem em estátuas de sal, onde os vulcões ferozes devoram as entranhas das jovens casadoiras, onde o coração dos homens só encontra paz em verdades mentirosas, onde me perdi a reler pela segunda vez este fabuloso livro de Gabriel Garcia Marquez, que terminei hoje, dei por mim já a meio do livro, a sublinhar palavras que não conhecia, às quais não liguei quando li este livro há cerca de 17 anos atrás, mas que agora que me despertaram nesta espiral do tempo em que me encontro, um interesse insano não só pelo seu significado, porque algumas conheço, mas que nem por isso deixam de ter uma sonância curiosa quando as dizemos com o ruído das cordas vocais, a outras tiro o sentido quando leio cada parágrafo desta história cíclica, ou outras que não conhecia de todo. Conto não esperar mais 17 anos para ler este livro novamente. Porque este é um dos muitos livros com uma riqueza imensa que já li , sem desprestígio para qualquer dos outros que estão na estante e que foram lidos com paixão. Porque cada livro é uma viagem, porque cada palavra por vezes nos atira para mundos que ficam gravados numa memória de vidas que já assistimos noutra dimensão qualquer, e que, simplesmente não nos lembramos. Por tudo isto e mais alguma coisa que possa ter esquecido de mencionar aqui, deixo uma colecção de algumas palavras com o respectivo significado no meio de milhões que ainda não sou capaz de descobrir dentro de mim e que vou descobrindo dentro de outros e vou aprendendo e se puder, ensinando. Deixo aqui também a minha humilde homenagem a este escritor de quem já li alguns livros. Deixo também um pouco de mim e da minha paixão pelas palavras:
Peltre – Liga de estanho e chumbo. Sarabulhentos - adj.
Sarabulhos - s. m. 1. Asperezas na superfície da louça. 2. Pop. Bostela; apostema.
Bostelas - s. f. Pop. Crosta que se forma sobre ferida ou pústula. Apostema - s. m. 1. Abcesso. 2. Fig. Mancha, nódoa, vício. Hierosolimitanos - Os naturais de Jerusalém são chamados de jerosolimitanos, jerosolimitas, hierosolimitanos ou ainda hierosolimitas Farândola - s. f. 1. Dança provençal executada de mãos dadas. 2. Música dessa dança. 3. Companhia de cómicos ambulantes. 4. Grupos de maltrapilhos. Canhamaço - s. m. 1. Estopa de cânhamo. 2. Lençaria grosseira de cânhamo. Balandrau - s. m. 1. Opa. 2. Capote ou casaco largo e comprido. 3. Antigo vestuário, com capuz e mangas largas. Sicários - s. m. 1. Facínora. 2. Assassino assalariado. Estentórea – não encontrada no dicionário de Português – encontrei apenas na história etimológica desta palavra de origem inglesa e adaptada para castelhano, que passo para aqui no original: Una persona con voz estentórea es una persona con un volumen alto. La palabra estentórea proviene de Stentor un guerrero mítico de la Ilíada que podía gritar con la fuerza de 50 hombres. Clavicórdio - s. m. Ant. instrumento musical. o Clavicórdio cuja primeira descrição precisa data dos finais do séc. XV. Tão antigo quando a espineta e os outros instrumentos da família do cravo, o clavicórdio não deve ser confundido com o piano. É um outro instrumento, cujas cordas (dispostas paralelamente ao teclado) são feridas segundo um dispositivo que permite ao mesmo tempo dividi-las, estando cada corda destinada a várias notas: o clavicórdio, diz-se então que é «ligado». Mísula - s. f. 1. Arquit. Arquit. Ornato que serve de suporte a vários objectos. objetos 2. Mar. Curva em que assenta a varanda da popa. Percal - s. m. Tecido fino de algodão. Paroxismo - paroxismo (cs) s. m. 1. Med. O maior grau de intensidade de uma doença. 2. Fig. O cúmulo da cólera, da exasperação. s. m. pl. 3. Agonia; os últimos momentos da vida. Tarro - (origem controversa) s. m. 1. Vaso em que os pastores recolhem o leite que vão ordenhando. 2. Alent. Recipiente de cortiça usado sobretudo para transportar alimentos. 3. Beira Sarro. Borzeguins - (castelhano borceguí) s. m. Botim de cano aberto. Metrónomo - s. m. Mús. Instrumento para medir o tempo e marcar o compasso das composições musicais. Martinete - s. m. 1. Grande martelo movido a vapor ou a água, para bater ferro ou aço. 2. Zool. Espécie de andorinha de asas longas. 3. Gavião. 4. Penacho dos grous. 5. Martelo de piano. 6. Náut. Uma das soalhas da balestilha. 7. Ponteiro de relógio de sol. 8. Bot. Flor amarantácea. 9. Mús. Peça dos antigos cravos destinada a abafar o som da corda vibrada. Embreada - v. tr. Brear; cobrir ou untar com breu; alcatroar. Viático - s. m. 1. Dinheiro ou víveres que se dão para a jornada ou viagem. 2. Relig. catól. O sacramento eucarístico administrado fora da igreja. (Nesta acepção!aceção, grafa-se com inicial maiúscula.) Mesteiral - s. m. Ant. Operário artífice. Pitonisa - (latim pythonissa, -ae) s. f. 1. Sacerdotisa de Apolo. 2. Profetisa; vidente. 3. Joc. Bruxa. 4. Cartomante. Opróbrio - s. m. 1. Desonra; ignomínia. 2. Abjecção!Abjeção extrema. 3. Afronta infamante. 4. Injúria. Conflagração - s. f. 1. Incêndio geral que irrompe por todos os lados numa vasta área. 2. Fig. Violenta agitação, revolução que alvoroça todos os ânimos. Páramo - s. m. 1. Campo deserto, raso e inculto, exposto a todos os ventos. 2. Fig. Qualquer lugar extremamente frio e desabrigado. 3. Ant. Amádigo. Estamenha - s. f. Tecido grosseiro de lã. Iniquidade - s. f. 1. Qualidade ou carácter!caráter de iníquo. 2. Grande injustiça; pecado; crime; perversidade. Pedra-lipes - s. f. Nome vulgar do sulfato de cobre, em pedra ou vitríolo azul. Hermenêutico - adj. Relativo à hermenêutica. s. f. 1. Interpretação do sentido das palavras. 2. Arte de interpretar leis, códices, textos sagrados, etc. Estultícia - s. f. Qualidade de estulto; tolice; necedade. Estulto - adj. s. m. Que não tem bom senso ou discernimento; néscio. Inapetência - s. f. Falta de apetite. Serôdia - adj. 1. Tardio; que vem no fim da estação própria. 2. Fig. Velho; antigo; que já se sabe há muito tempo. Calomelano - s.m. Protocloreto de mercúrio, colerético e purgativo. Pudicícia - s. f. 1. Qualidade do que é pudico. 2. Honra feminina. 3. Castidade; pudor, inocência, recato. 4. Pureza do corpo e da alma. 5. Palavras ou actosatos que denotam pudor. Lanceolados - adj. Do feitio do ferro da lança. Diatribe - s. f. Escrito ou discurso violento e injurioso (que acusa ou critica). Verrumar - (verruma + -ar) v. tr. e intr. 1. Furar com verruma. = furar, perfurar 2. Provocar reacçãoreação ou inquietação. = espicaçar, picar v. intr. 3. Pop. Estar em meditação. = pensar, meditar, parafusar Escumilha - s. f. 1. Caça Chumbo miúdo de caça. 2. Tecido muito fino e transparente. 3. Bot. Designação vulgar de eupatório. Eupatório - s. m. 1. Género de plantas asteráceas. 2. Trevo-cervino, erva-de-cobra. Timorata - adj. 1. Que teme errar, que receia ofender, que não se atreve a actuaratuar ou a executar. 2. Tímido, medroso, acanhado, vergonhoso. Fedegosas - s. f. n1. Vulvária (planta). 2. Nome também duma planta cesalpiniácea (cassia tora) cujas sementes torradas parecem café. 3. Nome de outra planta quenopodiácea também conhecida por macela-fétida (anthemis cotola). Cizânia - s. f. 1. Bot. Planta gramínea, nociva, que nasce entre o trigo; joio. 2. Fig. Discórdia; desarmonia. Curial - adj. 2 gén. 1. Da cúria ou a ela relativo. 2. Que intervém no foro. 3. Fig. Próprio, conveniente, conforme ao uso forense. s. m. 4. Diz-se do indivíduo que exerce qualquer cargo em cúria, tribunal ou câmara eclesiástica. Atávica - adj. Causado pelo atavismo. Atavismo - s. m. 1. Propriedade de os seres reprodutores comunicarem aos seus descendentes, com intervalo de geração, qualidades ou defeitos que lhe eram particulares. 2. Semelhança com os antepassados. Cordovão - s. m. Couro de cabra curtido. Demonológica - derivação fem. sing. de demonologia = demonografia - s. f. Tratado sobre os demónios (sua natureza, influência na humanidade, etc.). Pulcritude - s. f. Qualidade do que é pulcro. Pulcro - adj. Formoso, belo, gentil. Perreiro - s. m. 1. Bras. Reg. Guarda de matilha. 2. Enxota-cães. Cilicio – s.m. 1- Túnica de lã áspera, muitas vezes com farpas de madeira, usada sobre a pele como penitência. 2- Cinto ou cordão com pontas de metal para se usar apertado contra o corpo, provocando dor constante, como forma de penitência. 3- (Figurado) - Sofrimento ou sacrifício voluntários. O cilicio é usado para a auto-flagelação em muitas religiões. A antítese do cilício é a comodidade. Landes - (francês lande) s. f. Extensão de terreno arenoso onde só cresce vegetação selvagem (especialmente em França). = charneca, landa Lande - (latim glans, glandis, bolota) s. f. Glande (fruto). = bolota, landra, landre Levítico - adj. 1. Relativo aos levitas. s. m. 2. Terceiro livro do Pentateuco. (Nesta acepção!aceção, grafa-se com inicial maiúscula.) 3. Bot. Planta umbelífera medicinal. Levitas - Hoje fala-se muito de levitas, infelizmente há muitos que não sabem o que é ser um levita, porém mesmo assim se auto-denominam como tal. Para entendermos melhor a pessoa do levita vamos estudar sobre a origem deste nome. LEVI do Hebraico LÊWI ligado a raiz IÃWÂ significa JUNTAR , ou ainda HILLAWEH que significa UNIR. O nome HILLAWEH (LEVÍ) é da mesma família onomatopaica da palavra HALELUIA. A Tribo de Levi (hebreu: לֵוִי "devoto, unido"), é uma das Tribos de Israel que, segundo a Bíblia, foi fundada por Levi, filho de Jacó e de Léia. Incunábulos - s. m. Obra impressa antes do século XVI. Incunábulo é um livro impresso nos primeiros tempos da imprensa com tipos móveis, não escrito à mão. A sua origem vem da expressão latina in cuna (no berço), referindo-se assim ao berço da tipografia. Refere-se às obras impressas entre 1455, data aproximada da publicação da Bíblia de Gutenberg, até 1500 Lacedemónios - adj. 1. Relativo ou pertencente à Lacedemónia. s. m. 2. Natural da Lacedemónia. Lacedemónia - Lacedemónia (Laconia) é uma parte do sul da Grécia na qual se inclui a cidade de Esparta
…………
“Que não se morre quando se deve mas sim quando se pode.”
“A outra guerra, a sangrenta de vinte anos, não lhes causou tantos estragos como a guerra corrosiva do eterno adiamento.”
“…a busca das coisas perdidas está dificultada pelos hábitos rotineiros e é por isso que dá tanto trabalho a encontrá-las.”
“… uma velhice atenta pode ser mais atinada do que a pesquisa…”
In 100 anos de solidão de Gabriel Garcia Marquez.
Ana T. 15 de Agosto 2009
7月26日 Wolf SpiritPara não fugir à tradição, cá estou de novo 1 ano depois.
Estou tranquila, feliz, mais completa. Estou a completar-me com a outra metade do meu “eu”.
Desta vez, o balanço do último ano foi positivo. Tem sido nos anos anteriores, de uma forma ou doutra, mas este foi diferente. Principalmente nos últimos 4 ou 5 meses.
Finalmente mudei de casa. Estou no espaço que sempre sonhei. Com a Tata, claro!
Aprendi a aceitar-me como sou. Aprendi a aceitar as situações com outra abertura de espírito. Aprendi a positivar ainda mais.
Lentamente, estou a aprender a meditar de forma mais profunda o que me tem trazido uma calma diferente para gerir o dia-a-dia.
Aprendi a perdoar-me, coisa que eu não sabia fazer.
Novamente, mudei. De mim para mim, para melhor. De facto, o que importa mesmo é estar bem comigo para estar bem com os outros.
Tenho pessoas fantásticas na minha vida que me ajudaram a caminhar e a erguer-me neste último ano. Não esquecendo a minha família como é óbvio, porque sempre me apoiaram e me deram força para continuar.
O meu filho Edu, embora mais ausente por uma questão de feitio, mas sempre a minha maior conquista. Sempre com um papel muito importante na minha vida. Filhote… se sobrevivemos os dois há 23 anos atrás, foi por alguma razão especial.
O meu irmão Zé, a minha cunhada Cristina (Nina), que estão sempre presentes. A minha irmã Lena, embora longe geograficamente, está sempre em contacto, mesmo que em modo silencioso.
Os meus sobrinhos e sobrinhas.
Agora, vou à família que construi depois.
As minhas meninas do coração:
Começo pela minha Tata, a minha filhota “emprestada”, que sempre me apoiou incondicionalmente e me deu na cabeça quando foi preciso. Não nasceu de mim, mas é a filha que nunca tive. É a minha filhota, nem preciso dizer mais nada.
A minha Cina que me conhece como se fôssemos almas gémeas. Embora não nos vejamos com frequência, estamos sempre “ligadas” à corrente.
A minha Sónia, minha “mana” mais nova, que me torrava o juízo quando eu ia abaixo e que em momentos muito críticos não deixou que me enterrasse em vida.
A minha Eva, a mais comedida, a mais ponderada, enfim… aquela menina que transpira tranquilidade e parece a mais ajuizada de todas.
A minha Su, uma amiga muito querida e muito especial, que me ajudou e ainda ajuda, no meu processo de crescimento interior. Tem sido a minha “mestre” nesta nova fase de mim.
Este aniversário foi mesmo diferente de todos os outros.
Normalmente detestava este dia, não pelo número de anos que vou conquistando, porque felizmente sempre gostei da minha idade, mas porque me catapultava para recordações tristes.
Larguei este “peso” da tristeza no dia em que a Su, “sem querer”, fez com que eu soltasse os meus fantasmas, me enfrentasse a mim mesma e acima de tudo, que me perdoasse por dentro e que perdoasse a quem já cá não está.
Nesse dia renasci e cresci mais um pouco.
Se algumas pessoas tivessem consciência do quanto temos a aprender neste intervalo da vida!
O melhor presente de aniversário hoje? Reunir todas estas pessoas na minha casa. Na casa física e na outra “casa”.
Embora algumas não pudessem estar presentes fisicamente, sei que estiveram de outra forma. Portanto, é como se estivessem aqui ao meu lado.
Se alguém me perguntar “então é só gajas? E gajos na tua vida, há?”
Vou responder…
“Houve mas não cabem aqui” – não pela quantidade, que felizmente não foram muitos, mas os suficientes para eu perceber que se pode viver sem eles debaixo do mesmo tecto.
O que não consigo mesmo, é viver sem mim.
Nada no universo acontece por acaso, e hoje estou profundamente grata e feliz por todos os que passam pela minha vida e por estar aqui calmamente a escrever isto ao som de um dos meus cd’s favoritos, Before África, de David Antony Clark.
Beijos no coração.
Ana T. 26 Julho 2009
6月29日 Deixem-me ouvir a chuva a cairJunho. Mês de Verão. Supostamente Verão. Claro que é Verão. Quente e chuvoso. Nestes últimos dois dias apanhei alguma chuva. Deixei que a minha pele acolhesse a sua calidez.
Incomodou-me? Não. Nada.
Quando cheguei ao escritório, dei-me tempo para ouvir a chuva a cair no telheiro do terraço do piso onde trabalho. Fechei os olhos e fiquei ali 10 minutos. Mergulhei novamente no silêncio mental donde tinha sido arrancada à força uns instantes antes, pelo som de uma voz metálica e desagradável.
Tenho os meus rituais para descomprimir antes de enfrentar mais um dia de stress.
Tento chegar 30 a 40 minutos antes da minha hora. Nesse espaço de tempo, ligo calmamente o computador, abro da mesma forma sequencial e metódica, todas as aplicações que preciso para trabalhar. Depois vou ao terraço fumar o primeiro ou o segundo cigarro do dia (maldito vicio!). Fiquei a ouvir a chuva a cair até à hora de enfrentar mais um dia.
Detesto chapéus-de-chuva. Primeiro porque são um peso morto. Depois, andar no confusão de Lisboa com centenas de pessoas a atropelarem-se e aos encontrões com os ditos, não é para mim. Não deixo que destruam o meu estado de quase calma em que me encontro há algum tempo. E ainda, porque os perco todos (aos chapéus, claro). O último que comprei está esquecido dentro do carro.
Hoje de manhã quando saí de casa olhei para o céu carregado de nuvens de chuva. Mas ainda assim deixei o acessório no carro, e o carro bem longe de Lisboa.
Quando cheguei à paragem de metro mais próxima do meu local de trabalho, estavam pessoas amontoadas à saída da escadaria do metro. Apanhadas desprevenidas pela chuva que caía copiosamente, ficaram ali paradas. Avancei e subi as escadas, apanhei chuva no percurso de quase dois quarteirões.
Incomodou-me? Não. Nada.
Tomei tranquilamente o pequeno-almoço e retomei a leitura do tal livro. Sim, esse mesmo. Aquele que me deixa uns centímetros acima do chão. Já o devia ter terminado. Mas não tenho pressa. Estou a ler cada página, calma e lentamente. Saboreio cada palavra como se estivesse a degustar um néctar do Olimpo.
Esta parte do livro que estou a ler, é tão maravilhosamente intensa que cada frase é um bálsamo para a alma. Revejo-me em muitos daqueles dilemas existenciais, nas dúvidas mais íntimas da minha essência. Cada frase obriga-me a pensar e a sentir. Sentir-me por dentro.
Mentalmente, rio e choro. Lembro-me de situações que já atirei para um passado de mil anos. Porque afinal estou num percurso espiritual que me leva a aceitar de forma mais positiva cada acontecimento. Tenho demasiado para aprender. Apenas deixei de ter pressa. Vou tentando aceitar cada obstáculo e vou encontrando forma de o contornar.
Não deixo que esses obstáculos travem a minha vida. Se precisar de esperar até encontrar uma solução, então espero. Sem pressas.
Claro que o primeiro impacto me atira para um estado de ansiedade doloroso. Depois dou por mim a conversar com o Universo e a pensar que não adianta ficar ansiosa. As coisas nem sempre têm uma solução imediata ou visível.
É nesses momentos que entro em profundo silêncio e comunico sem verbalizar. Entro num estado semelhante a quem faz mergulho. Deixo de sentir o peso do meu corpo, fico no silêncio ruidoso do fundo do mar. De mim para mim. Torno-me solúvel. Deixo fluir a energia e canalizo-a para diversos pontos do outro “eu”. Ou então, canalizo-a para alguém que precise de um pouco daquela paz.
E assim, comecei mais um dia a escutar o barulho da chuva quente na minha pele.
Também é necessário sorrir com a chuva.
Beijos no coração.
Ana T.
29 Junho 2009
6月24日 IntolerânciaA propósito da Marcha de lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros, no passado dia 20 de Junho em Lisboa Sei que este assunto gera muita polémica e controvérsia. Não me preocupa a polémica.
Preocupa-me sim, a estupidez humana quando oiço uma colega de trabalho dizer: “Ah! Aquelas pessoas que têm a mania que nasceram num corpo diferente e querem mudar de sexo? ” A minha resposta a uma pergunta tão estranha, foi outra pergunta: "E tu por acaso pensas que as pessoas mudam de sexo ou orientação sexual por capricho?”
Do lado de lá obtive um silêncio e um olhar esbugalhado.
Tive vontade de lhe bater, de a insultar... mas nem sempre a estupidez humana merece mais resposta. Optei por olhar com aquele meu olhar que muitas pessoas conhecem e ficar enjoada e enojada com a falta de capacidade que alguns seres têm para tentar, pelo menos tentar, entender os outros.
É lamentável que ainda tenhamos que recorrer a marchas contra a desigualdade. Porque de facto, somos discriminados pelas coisas mais mesquinhas.
Há quem chame folclore a esta marcha, e agora um parentisis (vai também ser feita no Porto dia 11 de Julho). Não considero folclore.
Há outros folclores mais estranhos neste país, a começar pela Assembleia da República. Mas essas são outras histórias.
Esta marcha é uma forma de chamar a atenção para um problema real e sério.
Não há marchas a favor das chamadas minorias
étnicas? (E estou apenas a citar alguns exemplos)
Desde quando a normalidade é assim tão específica?
Porque se vive numa sociedade cheia de esteriótipos, há necessidade de marchas e manifestações e tudo o que seja válido, para acabar com todos os tipos de discriminação.
Mas, perante a passividade dos governantes e a estupidez humana, então façamos as marchas, ou protestos, ou abaixo-assinados que se acharem necessários, para se tentar mudar alguma coisa a bem de todos neste Universo.
Por acaso sou heterossexual... mas um dia posso descobrir que não sou e que poderia ter passado a minha vida com um padrão errado.
Por acaso estou dentro dos padrões considerados "normais"... mas podia ter paralisia cerebral ou outra deficiência mental ou fisíca.
Pelo menos não ofendam quem é diferente.
A quem não compreende, porque não podemos todos gostar de amarelo, pelo menos aceitem que há diferenças em todo o Mundo.
Dizer mal, só por dizer, sem sequer se tentar colocar no lugar do outro, é mera perda de energia e tempo.
Abram a mente e tentem pelo menos perceber os outros. Talvez este planeta venha a ser mais agradável para se viver.
Beijo no coração.
Ana T.
24 de Junho 2009 6月21日 “A tua casa é apenas o teu corpo”Quando me disseram isto, fiquei a pensar. Maturei esta frase durante semanas. Só hoje estou a passar para este espaço cibernético.
Não gosto quando o meu corpo externo muda constantemente desde que me conheço como gente. Nesta fase ele está a mudar outra vez exteriormente, para melhor.
Embora ainda esteja a aprender a lidar com esta nova fase de mim, estou a sentir coisas diferentes. Emoções escondidas que teimam em espreitar à toa.
No interior, está a mudar mais uma vez, para muito melhor. A luta mental que vou tendo com um reduzido número de pessoas obriga-me a acordar e a enfrentar as coisas que me assustam.
Vou talvez começar por um diálogo interno: o que é para mim “a casa”
A minha casa tem de ser aconchegante, simples, tranquila, com sol, com plantas, com pelo menos um animal de estimação. Tem de ser acolhedora para os meus amigos do peito. Tem de ter sempre uma porta aberta para eles quando precisarem de colo ou quando querem apenas beber um café e conversar de tudo e nada.
Os barulhos de alguns silêncios que tenho com pessoas específicas são muito gratificantes.
Importante: tem de estar arrumada (eu e a minha mania de organização). Não consigo viver na desorganização. Pode ser pequena, mas tem de ter “espaço” para todos. Ou seja, quem estiver dentro da minha casa tem de se sentir confortável, à-vontade, tem de se sentir como se estivesse na sua própria casa.
Tem de ter velas, incenso, espanta-espíritos, caçadores de sonhos, água e pedras.
Sei o que sinto, as emoções vêm em catadupa, estou a arrumá-las. Estava a afogar-me em emoções, porque sou assim, por vezes deixo invadir-me de emoções fortes, por vezes acutilantes. Se isso me desarruma, arrumo-as eu. À minha maneira.
Se estou desarrumada por dentro não posso ou não consigo ser aconchegante, calma e simples. Permaneço com as portas abertas aos meus amigos quando eles precisam, mas se não tiver a calma suficiente para os acolher devidamente, eles não ficam confortáveis. E não me permito a isso.
Estou numa fase de arrumação interior, a equilibrar emoções, porque catalogadas já estão. A partir daqui é mais fácil.
Porque simplesmente as situações acontecem quando têm de acontecer. Quando elas aparecem, penso no que fazer ou como proceder e deixei de sofrer por antecipação.
Por isso, venha a mudança, porque todas as mudanças são benéficas. Nem que seja para crescer mais ainda como ser humano.
O meu coração é a minha casa.
Talvez um dia percebas a minha forma incondicional de amar os outros, que mais ninguém entende.
Beijos no coração.
Ana T. 21 Junho 2009
5月26日 Comer Orar AmarComecei a ler este livro há 2 dias. Foi emprestado por uma colega com mais outros 2 livros que já terminei. Quando olhei para este livro, pensei, vais ser o último a ser lido destes três. Sou como as crianças quando comem uma refeição que gostam muito, deixo para o fim aquilo que pressinto que me vai dar mais prazer.
Ainda não cheguei a um terço do livro. Porque só leio quando estou no metro a caminho do trabalho e de volta a casa. À noite nem sempre tenho a disposição ou a paciência necessária para ler.
Mas hoje dei uma volta diferente aos meus afazeres, despachei o que era urgente, fiz calmamente o jantar, resolvi descomprimir da tensão que me tem oprimido a alma nos últimos dias, e resolvi libertar-me um pouco mais na leitura deste livro.
Estou a entrar neste momento na 27ª conta do círculo que é este livro. São 108 contas que vou percorrer deliciada e calmamente.
A autora Elizabeth Gilbert, explica porque adoptou o japa mala para escrever este livro. Vou resumir para não espantar a curiosidade de quem o quiser ler.
O japa mala é um fio de contas indiano, tradicionalmente composto por 108 contas. Este fio ajuda os budistas ou os hindus a manterem-se concentrados durante a meditação. Nos círculos mais esotéricos dos filósofos orientais, o número 108 é considerado o mais auspicioso, um múltiplo perfeito de três dígitos do número três… (se querem saber mais, abram a mente e leiam o livro). A autora refere também que existe a 109ª conta, que serve de indicador ou sinal para uma pequena pausa na meditação e agradecer aos nossos mestres, para depois se prosseguir com a meditação.
Voltando ao que me leva a escrever sobre isto:
Comecei a ler o livro após uma das muitas conversas esotéricas que tenho tido com uma amiga muito especial. Nessas conversas tão intensas e enriquecedoras, entro facilmente num estado similar ao transe. Esqueço tudo o que se passa à minha volta e fico algures a pairar, deixo de sentir o peso do meu corpo, o ruído que vem da rua parece infinitamente distante. Tenho perfeitas ebulições mentais, ao ponto de descaradamente falar em orgasmo mental, sempre que abordamos este tipo de tema.
O facto é que hoje acordei leve, embora antes de adormecer tenha “aterrado” à toa e fiquei com uma violenta dor de cabeça.
À medida que avanço neste livro, já experimentei um sem número de sentimentos. Já ri e sorri, chorei por dentro, já me fez pensar em muita coisa, lembrar outras tantas e percebi que não tenho de me arrepender do que já fiz e ainda possa vir a fazer o resto da minha vida para alcançar a paz e o sossego que sempre ansiei desde criança.
Tudo o que faço de certo ou errado, é sempre baseado na minha crença no ser humano, na minha forma de amar os outros que ninguém compreende, na minha forte intuição, que sempre foi uma espécie de guia que me ajuda a levantar dos tropeços que volta e meia me arrancam do rumo traçado para estar neste universo.
As primeiras contas deste livro deixaram-me com a certeza inabalável que nada acontece por acaso, compreendi melhor o que a minha amiga tentou ensinar-me sobre a energia universal da qual todos fazemos parte. Percebi que sou um ser comum para quem se der ao trabalho de me conhecer a sério.
Hoje estou um pouco acima do chão.
Mas, como disse no início, ainda ou na 27ª conta.
Quando me apetecer falar mais sobre isto, estarei de volta.
Namastê.
Ana T. 26 de Maio 2009 4月9日 Deserto
Estou irracional.
Mandei a razão às urtigas.
As urtigas ao lixo.
Como fiz há dias, ao canteiro das minhas roseiras.
As urtigas lá fora desafiaram-me.
Cresceram à toa para abafarem as minhas roseiras.
Parasitas… aproveitaram um inverno longo e chuvoso
Queriam rebentar com a harmonia do meu canteiro.
Mas arranquei-as pela base.
Pela raiz.
As minhas roseiras estão livres novamente.
Quero arrancar de dentro mim
As urtigas que me abafam a alma.
Que me paralisam o pensamento.
Reduzem o meu coração a uma noz sem casca.
Indefeso.
Nu.
Sofro uma indigestão de mim.
Estou entupida até à medula de sentimentos que amordaço.
Quero odiar.
Quero gritar.
Quero chorar.
Quero rir.
Quero ser má.
Quero desprezar.
Quero sentir raiva.
Quero sentir despeito.
Quero sentir ciúme.
Quero sentir tudo isto para conseguir Amar.
Preciso de me esvaziar do que não existe.
Ficar num estado de torpor infinito.
Escarafunchar no mais fundo de mim
Para descobrir o que me apodrece por dentro.
Escrevo e não sai nada interessante.
Nem desinteressante.
Interrompo-me numa miríade de pensamentos desordenados.
A minha mente parece um bando de pássaros num voo espavorido.
Como se fugissem de um caçador furtivo.
Como odeio caçadores!
Caçam pelo prazer de matar.
Pelo prazer do prazer.
Matam vidas.
Matam almas.
Matam corações indefesos
Exibem troféus
Como se fosse uma arte superior.
Quero dormir para não pensar.
Quero ficar acordada para pensar.
Quero pensar
Dar espaço ao meu vazio.
Não consigo orientar os meus passos.
Se estou sozinha, quero estar acompanhada.
Quando estou acompanhada quero ficar na minha concha.
Procuro incongruências e frases estúpidas.
Preciso de me estupidificar.
Ficar inerte ao que se passa lá fora.
Preciso ser primária… animal.
Já deixei que esgotassem tanto a alma e o coração.
Agora esvaziem-me a mente.
Demoro num estado vegetativo onde estou confortável.
Não me lembro de nada.
Entro num mundo de sonhos
Impossíveis e inenarráveis.
Não tenho energia para acompanhar a energia dos outros.
Apetece-me olhar para lado nenhum.
Olhar para o tecto do meu quarto
Perceber que precisa de ser pintado
De cor nenhuma.
Ana T.
8 Abril 2009
3月17日 Folhas secasFolhas secas
Há pessoas que são como as folhas de Outono. Caiem num voo lento e derradeiro. Ficam ali… inertes, secas, pasmadas. Ficam á espera que o vento as leve numa valsa louca. Ou que as crianças brinquem com elas, pontapeando-as só pelo prazer de ouvirem o restolhar de folhas secas, como penas mortas.
Outras folhas virão em seu lugar. Renovação dorida e dolente.
Cada folha tem uma existência única e especial. Cada uma cumpriu a sua parte. Fazem parte de um ciclo e partem para outro.
O ciclo outonal da vida é difícil de aceitar.
Mas haverá sempre uma primavera que vem renovar esperança, afectos… Tentamos olhar o mundo lá fora com um leve sorriso… tímido.
Pacientes, aguardamos que o sol nos arranque dum Inverno frio e triste.
Ana T.
2月8日 Desfile de floresO barulho da morte incomoda.
Mas incomoda-me mais o chinfrim dos velórios.
É normal a família, amigos chegados e outros nem tanto assim, conhecidos, vizinhos… estarem presentes para o último adeus a quem parte. Ou até estar presente para tentar dar algum apoio moral a quem perdeu parte da vida.
Nos últimos três dias assisti e revivi o que não esperava.
Perder alguém dói sempre. Pai, mãe, irmãos, filhos, esposos, companheiros, namorados ou amigos chegados.
Tentar dar força a quem perdeu, é difícil. Há sempre uma sensação de impotência, entendemos que fazemos pouco ou que nada de especial pode aliviar a dor de quem perdeu alguém. Mas tentamos.
Será que chega? Não sei.
Depois há as conversas de circunstância, que fazem parte desta passagem. Não sabemos bem o que dizer. Uns optam pela via dolorosa e sem querer são demasiado trágicos na forma de expressão. Outros optam pelo cumprimento politicamente correcto, seco mas eficaz. Sem dar espaço à libertação das emoções. Apenas o estritamente necessário. Outros optam pelo silêncio e apenas um olhar ou um abraço.
É difícil saber o que dizer ou fazer nestes momentos.
Há um outro chinfrim típico dos velórios que me incomoda sobremaneira.
Só gostava de perceber, porque num velório não se deixa a intimidade do defunto em paz. Não sei porque razão, os defuntos têm a cara tapada com um lenço. Se está tapada deve haver um motivo muito importante. Supostamente para não se ver a cara de quem já deixou o seu vaso.
Então, porque cargas de água a maioria das pessoas que entram vão destapar a cara de quem faleceu? Será para confirmar que é mesmo aquela pessoa que ali está? Será que é para observar a expressão com que partiu? Será morbidez?
Essa “invasão” ao rosto do defunto deveria ser privada à família e amigos realmente chegados. É a minha opinião. Há outras.
Depois há o desfile das flores mais bonitas, mais bem arranjadas… Parece que se entra numa competição. Pronto, talvez seja uma tradição levar flores. Será para disfarçar o cheiro da morte? Será uma forma de dizer…”gostamos de ti e vamos sentir a tua falta”? Será vaidade pessoal de quem envia as flores?
Também já não sei.
Mas pergunto:
Será que aquela pessoa recebeu flores e mimos suficientes enquanto foi viva?
Ana T. 8 Fev. 2009 1月26日 As palavras“As palavras podem voltar-se do direito e do avesso e é sempre o mesmo.”
in: A hora má: o veneno da madrugada. Gabriel Garcia Marquez.
Há palavras que nos caiem mal e provocam uma azia feroz na alma. Por vezes não são as palavras por si só, mas a intenção ou a entoação com que são pronunciadas.
Por exemplo, cai-me muito mal na alma, alguém que conheço há 30 segundos, chamar-me “amiga”.
Banaliza-se o conceito de amizade. O que é mau. A amizade constrói-se. O conhecimento do outro ou outra é lento. É importante existir uma boa percentagem de afinidades para se considerar que alguém pode ser amigo de alguém. É necessária uma boa dose de tolerância para se aceitar os defeitos, ou feitios dos potenciais amigos ou amigas.
Mais importante ainda: é imprescindível uma empatia natural. Sobre as afinidades e as empatias, estamos conversados. Porque essas coisas fazem parte da intuição do ser humano.
Agora falta a cereja no topo do bolo: a confiança.
Sem confiança não pode existir uma amizade sólida. Nem tampouco pode existir carinho, amor, fraternidade.
Se não se confia em alguém, não se consegue contar os segredos e sonhos mais inenarráveis que nos correm nas veias. Por vezes nem os mais banais se contam.
Não sei se antes ou depois, entra o amor no meio de tudo isto. Mas com a idade aprendi que não existe um grande amor sem uma amizade sólida.
Fala-se de amor como se fala de maçãs, ou nabos, ou de chuva e sol.
Todo o ser humano precisa e quer ser amado. Mas sem a confiança, não há amizade. Sem amizade o amor não faz sentido. Fica apenas a vontade, o desejo, o instinto mais básico a comandar.
Se temos o privilégio de sermos dotados de uma inteligência diferente da dos animais, então dignifiquemos essa inteligência. Sejamos mais coerentes e mais verdadeiros. Primeiro dentro de nós. Para depois podermos sê-lo com os outros.
Por isso façam-me um grande favor: não desperdicem a palavra amizade, como se desperdiça a palavra amor.
Ana T. 26 Jan. 2009
9月27日 Metáforas em monólogo.Metáforas em monólogo.
Há quanto tempo não fazes poesia? Há quantas luas não constróis as tuas metáforas, que te saíam como quem respira?
Sei lá!
Porque não tentas?
Porque não me apetece!
Falta-te inspiração?
Não, falta-me a capacidade de arrumar as palavras. Elas bailam-me na mente e na alma. Escarnecem de mim. Fazem-me caretas. Olho para elas e não lhes ligo. Mando-as para outra dimensão de mim. Quero que se escondam. Onde não as possa ver nem ouvir.
Que te aconteceu? Desistes?
Não, não desisto. Simplesmente quero descansar. O mundo inteiro é uma metáfora gigantesca. Tão imensa que me esmaga o peito. Prefiro respirar os sons do silêncio. Já nem tempo tenho para olhar as estrelas da noite.
E não sentes saudades?
Sim, sinto. Tantas! Mas elas não querem harmonizar-se comigo. Estão numa dança louca, sem sentido, sem ritmo. São cruéis. Assomam à ponta dos meus dedos e fogem de seguida. Como num jogo de gato e rato. E deixo-as fugir. Abri a gaiola onde as guardava e soltei-as. Como se faz aos pássaros que morrem por estarem presos. Aguardo que elas migrem. Que se reproduzam no calor do sol. E quando quiserem voltar, voo com elas. Mas elas não querem migrar. Não querem multiplicar-se. Preferem ficar a bailar à toa dentro de mim.
Porque não as agarras e as mimas? As palavras também precisam de carinho!
Já não sei se quero mimá-las mais. Mimei-as tanto que se comportam como crianças mal-educadas.
Educa-as! Castiga-as!
Não quero. Castigar as palavras é como cortar asas a anjos. E os anjos são livres. Aparecem e desaparecem quando bem entendem. Pregam partidas e fogem a correr muito, como se fossem miúdos travessos que acabaram de tocar às campainhas de todas as portas do Universo. Vão todos espreitar a ver quem era. E não era ninguém. O Universo irrita-se com estas brincadeiras. E inquieta-se! Depois volta tudo à rotina habitual.
E que pensas fazer?
Por agora nada. Vou deixar que as metáforas se comportem como anjos brincalhões. Afinal, são eles que de vez em quando acordam o Universo do torpor medonho em que mergulhou. Vou aguardar com paciência, o dia em que consiga arrumar palavras outra vez.
Ana T. 28 Set. 2008
9月25日 Até um carrasco pode ser humanoHoje de manhã enquanto ia a caminho do trabalho no autocarro do costume, estava absorvida em mil e um pensamentos, no sono que sentia, e em nada. Reparo que uma velhinha estava com alguma dificuldade em manter o equilíbrio para conseguir sentar-se enquanto o autocarro se mantinha em marcha. Ela queria subir o degrau que dá acesso aos bancos vermelhos, àqueles que são reservados a idosos, pessoas com deficiência ou acompanhante de crianças do colo. Francamente não entendo porque tem de haver um maldito degrau para aceder a esses lugares, pois não facilitam em nada a quem de facto precisa deles. Tanto se fala de mobilidade e só se encontram obstáculos.
É uma senhora pequenina, muito magrinha, leve que nem algodão. Ajudei-a a sentar-se. Até para os mais novos é difícil segurarem-se ou equilibrarem-se com os violentos solavancos dos autocarros. A senhora agradeceu e começou a conversar comigo. À laia de explicação, ou até por necessidade de falar com alguém, disse que precisava sempre de ajuda para algumas coisas, como atravessar ruas, sentar-se no autocarro em movimento, porque via muito mal. Percebi que vive sozinha, não imagino que idade tem a senhora, mas calculo que esteja perto de uns generosos 80 anos, pelo menos. Então lá na sua sabedoria, dizia, que muitas pessoas ajudam, mas outras fazem de conta que ela não existe. E espera que a próxima a ajude simplesmente a atravessar uma rua. Depois diz-me que parar é morrer e que para não estar todos os dias em casa sozinha, sai sempre para ir dar um passeio. Enquanto tiver aqueles restos de energia que a idade e a limitação visual lhe permitirem, sai todos os dias. E que enquanto está com Deus nunca estará sozinha. Depois conta-me uma história tão impressionante, que agora ao passá-la para o mundo, ainda me arrepia a alma. Esta história pode até ser banal, mas nos dias de hoje e com a violência galopante, não achei tão banal assim. Pedi autorização à senhora para contar esta história a outras pessoas, ao que ela anuiu com um sorriso. Cheguei á paragem onde tinha de sair para o meu trabalho, despedi-me dela com um beijo na testa e desejei-lhe toda a boa sorte do mundo.
A história:
“Há uns meses atrás, não muitos, saí de casa como sempre para ir até á Baixa, e pedi a um senhor que estava ao meu lado no passeio, para me ajudar a atravessar a rua. O senhor perguntou-se se vivia sozinha. Respondi que sim. Depois perguntou-me se vivia bem. Respondi que não. Se vivesse bem podia pagar a alguém que me acompanhasse nas minhas pequenas deslocações. Depois perguntou-me como fazia quando estava na rua sozinha. E respondi: peço ajuda às pessoas. O indivíduo calou-se por momentos e ajudou-me a atravessar a rua. Faz-me confusão a senhora andar sozinha na rua, com essa dificuldade em ver, dizia-me ele. Num gesto rápido, o homem coloca na minha mão uma nota de 50 euros. Emocionada com aquela atitude, expliquei que não peço dinheiro às pessoas. Só peço ajuda para atravessar a rua ou para me avisarem quando chega o autocarro que preciso para voltar para casa. E o homem responde-me: a senhora não me leve a mal, mas hoje converteu-me um pouco. Sabe com quem está a falar? Com um ladrão.”
Tudo isto me fez pensar e repensar a vida, a minha e a de outras pessoas que estão mais próximas. Criou em mim uma esperança renovada no ser humano e enfrentei o dia de hoje com mais coragem. Por norma não sou de lamentos. Mas quando algo me aflige bastante desabafo com amigos muito próximos. Creio que o desabafo necessário e saudável. O lamento não é saudável e só mói a alma de quem o faz e a quem o ouve. Fez-me lembrar algumas pessoas que passam os dias a lamentar-se de tudo, parecem uns “calimeros” em versão portuguesa. Parece que gostam de sentir pena delas próprias ou até suscitar a pena dos outros, o que é bem pior. Pessoas com saúde e capacidade física para fazerem a sua vida normal e simplesmente se entregam ao desalento e passam os dias encafuadas em casa a carpir desgostos, não fazem nada de útil e dizem que não sabem o que fazer e que já não servem para nada.
Que desperdício de tempo e de energia!
Ouvir esta velhinha fez-me sentir imensas saudades de quando tinha tempo livre para fazer voluntariado. Mas para fazer voluntariado é necessário algo mais do que tempo. É necessária predisposição natural para ajudar os outros. Outros que normalmente são meros desconhecidos. Pelo simples prazer de ajudar. Pelo simples prazer de arrancar sorrisos de alguns olhos tristes dos rostos incógnitos que passam por nós. Na época em que me dediquei ao voluntariado, foi das tarefas mais gratificantes que pude ter. Que saudades tenho desse tempo! Quem sabe, quando tiver a minha vida mais organizada e não estiver tão escravizada ao trabalho, volte a arrancar sorrisos de olhos desconhecidos.
Beijo no vosso coração! Durmam em paz!
Ana T. 25 Set. 2008
8月23日 Hard decisionsHard decisions.
Today I went to Sesimbra with Marisa. She’s is like a daughter to me. We share a lot of things. The house, the cat, the joys, the sad days, the bad mood days, the peaceful days and the days we just want to do nothing at all.
Today we needed to relax, see sun and sea. We both work like hell. We deserve peace, love and sunny days.
I have my own son. I adore my son. But there are things we can’t talk with a guy (especially if that guy… is our own son). Those kinds of things and feelings, which only mature women, are able to understand.
It was a very sunny day, but an impossible windy day. So we decided not to go the beach. We weren’t in a mood to eat sand. We walked by the seaside. In a glance we both wanted to go to the pear and sat down in the rocks, and just stand there, enjoying the sound of that beautiful light green water. The sun caressed our skin and our souls.
We talked a lot. We use to do it. But sometimes we don’t need to talk. We do that a lot too. We just respect our silences. Some times we need to be in silence. We both have similar inner energy.
We talked about our dreams, our disappointments and our jobs, our wishes, the guy she loves and the guy I love, and we can’t be with them. There are impossible loves. They are impossible men.
So we got into the conclusion that women have a lot more guts, than many guys. That sometimes the hard decisions are made by women. Just because there are some guys that have afraid to move ahead with their lives. Some guys prefer to have a lousy relationship, than rather have none. Some guys don’t want to give life a chance to be happy. Some guys don’t have the courage to begin all over again. And when they do, is because their ex-wives or their ex-girl friends kicked them in the ass. When that happens, they are forced to begin a new life, whether they like it or not.
So we both got into the conclusion that we should try to forget our soul mates and move on with our lives as free, mature and independent women.
Today I made one of the hardest decisions of my life. I will never again talk with him about the “us” issue. The old “us” is past. It is impossible to go back in time. We are both different. We grew up. We are bitterer. Our standards are higher.
We both had unlike paths along these past three years. The possible new “us” is a wild dream, because he doesn’t want to try it again. He doesn’t want to give life a chance for a new and different “us”. Three years ago, the “us” issue was almost impossible, because he wasn’t free. Now that he is free and he knows me very well (or maybe not that well), he is still in the “maybes” and “buts”, or the usual stuff “we never know what live brings…”
Three years ago we should have had that final, hard and painful discussion, to clear away all our ghosts, and pending feelings. But as usual, he never had the time and the will to do it. I broke up with him, because he never had enough time for “us”. Today, he still doesn’t have time.
I’m in my late forties and I don’t want to waste more time and energy with these kinds of ghosts.
I still have him in my heart and soul. But I realised that I’m not inside his heart any more. It hurts a lot know. Love hurts. Maybe we can still be good friends, as we have been until now, just that. Nothing else matters.
My standard is clearly higher. I refuse to suffer again. I’m not able to deal with “maybes” and “buts”. I hate limbos. I know very well what I want for me and for my life. Instead of limbos, I prefer to be by myself.
Ana T.
23 Aug 2008
7月11日 AprendiAprendi…
Que viver é ser Livre.
Que ter Amigos é necessário. Que Lutar é manter-se Vivo. Que o Tempo cura. Que Mágoa passa. Que Decepção não mata. Que Hoje é o reflexo de Ontem. Que o Amor é como as ondas do Mar… vem e vai. Que a Dor fortalece. Que Sonhar não é crime. Que a Beleza não está no que vemos, mas no que sentimos. Que o segredo da Vida é viver em busca da Felicidade… sozinho ou acompanhado. Mas, acima de tudo, sermos Livres, fazermos as Nossas escolhas e ficarmos bem com a nossa Consciência. Que não se pode viver a Vida Arrependido… porque Errar faz parte do crescimento Interior. Que Crescer Dói.
A verdadeira Coragem do ser humano vê-se na forma como Luta para vencer Obstáculos.
E quando não se podem vencer, há que saber contorná-los e manter-se de Pé. Como as árvores. Tocar a Vida para a frente, porque Amanhã há um Novo Sol. Que todos os dias Aprendemos coisas novas, por mais pequenas que possam parecer. Que acima de tudo… saborear a Liberdade é não permitir que os outros nos atropelem a Alma. Sê Feliz à Tua maneira.
Ana T.
7月1日 OpacidadeHoje alguém me perguntou se estava preparada para iniciar uma nova etapa na minha vida.
Respondi com uma pergunta, com toda a transparência possível: "Qual etapa?"
A etapa era, se já estava preparada para outros voos, outro relacionamento.
Transparentemente, disse que NÃO, com maiúsculas, para que ficasse bem claro. Expliquei que nesta nova etapa estou na fase do egoísmo. Agora é vez de cuidar de mim por dentro e por fora.
Cansei-me de tomar as dores dos outros, sofrer com os problemas dos outros, deixando-me sempre para trás, acabando sempre por cair num buraco tão profundo que me atira para os antípodas e fico sem saber onde estou ou o que estou a fazer naquele lugar. Libertei-me de uma relação doentia e problemática.
Resposta do outro lado: "Tu não és mulher para ficar sozinha", tens de pensar nisso, nunca sabes se um dia aparece um "gajo" que te mereça.
Ora bem, então digo transparentemente, que não preciso de "gajo" nenhum para ser o que sou, o que sempre fui.
Não quero, nem penso em ter mais alguém na minha vida. Nem a médio ou longo prazo. Ponto!
Empanturrei-me de mentirinhas tontas, de mentiras graves e de um mentiroso compulsivo.
Enfartei-me de "gajos" que não têm "cojones" para assumir um relacionamento normal, sério e decente.
Antes de tudo isso, tive uma indigestão de "gajos" que só queriam cama, a ponto de me enjoar e enojar com a mesma cantiga de sempre.
Não havia "Alka Seltzer" nem "Eno" que chegasse para tanta azia.
Solução: só como o que é saudável, ou seja, ninguém.
Fico-me pelas saladas com alface, rúcula selvagem, cenoura ralada, couve roxa, tomate, queijo "feta", ou queijo fresco, cebola, azeitonas, salsa e coentros. Temperada q.b. com sal, pimenta, azeite e bastante vinagre. Quando posso, dou-me ao luxo de juntar finíssimas fatias de salmão cru, que pacientemente corto em casa, com uma faca bem afiada. Gosto de facas bem afiadas. Detesto facas que só cortam manteiga no verão. Por isso tenho um afiador de facas como aqueles que os talhantes usam.
Pena não haver homens que se comparem à utilidade de uma faca de cozinha bem afiada.
Provavelmente o vinagre torna-me mais amarga. Mas não tenho indigestões nem enjoos, nem angústias matinais, vespertinas ou nocturnas.
Por vezes, dá-me para desatar a cozinhar como se tivesse um regimento em casa. É bom para o stress e aumenta a criatividade.
Nada se estraga, vai tudo para o congelador.
Literalmente transparente, como sempre fui, não mando recado por ninguém e digo o que sinto na cara e nos olhos, e continuo com o mau hábito de chamar os bois pelos nomes, o que muito boa gente não gosta.
Preferem que se rodeiem as questões, os sentimentos, as mágoas, as alegrias.
Não rodeio nada! Se doeu, digo que doeu! Se não gosto, digo que não gosto! Se gosto, digo que gosto! Mas se me pisam os calos, sai um f******* bem sonoro e viro a mesa.
Ao rodear sentimentos que são a parte mais importante de qualquer ser humano, tornamo-nos hipócritas, meio amorfos, meio lesmas, meio patéticos, uns idiotas chapados, que nem um santo atura.
Pois é! Tenho o defeito de deixar encher o saco, mas ainda assim, vou avisando vezes sem conta quando as coisas não estão bem. Quem devia acreditar nos meus avisos não acreditou. Quando me salta literalmente a tampa, ficam a olhar para mim como se não me reconhecessem.
A opacidade que escolhi como título para esta crónica, tem uma razão um pouco cómica. Acusaram-me de ser opaca, de não mostrar o que sinto. Chamaram-me opaca, porque ao fim de um sem número de avisos, saltou-me a tampa e virei a mesa. Claro que me irritou, mas ao mesmo tempo ri-me da patetice.
A resposta, pronta como sempre, foi "Nunca fui opaca, nunca ninguém me acusou de falta de transparência, pelo menos aquelas pessoas que me conhecem muito bem. A questão da opacidade está no facto de algumas pessoas só verem o que querem ver ou que lhes dá mais jeito ver." É tudo uma questão de oportunismos, de ver para que lado cai a cana, de ver se o barro cola na parede. Quando andava mais distraída, colava. Como agora não ando tão distraída, não há nada que cole.
Sou frágil, muito frágil, mas fraca não. Em três anos e meio mudei de casa cinco vezes. Logo eu que detesto mudanças. Por agora estou bem. Quieta no meu canto, com o meu gato cada vez mais apaparicado. Não me chateia porque gosto de andar descalça em casa, não me chateia porque gosto de meias de Inverno com bonecos, não me critica quando visto uma t-shirt com o Taz ou com o Tweety e o Silvester, ou até às riscas como os piratas. Não me critica por preferir andar de calças. Não me diz que fico mais sexy de saltos altos. Eu não sou sexy, nunca fui. Saltos altos só quando me apetece a mim e aos meus pés.
Não reclama da comida, não me controla os passos, não fica amuado quando não me apetece fazer-lhe festas. Cumprimenta-me alegremente quando chego a casa, conversa comigo na linguagem dele, que é tão simples de entender! O meu gato é mais fiel que muito homem. Ponto!
No espaço de pouco mais de um mês, ainda a recompor-me do trambolhão, já consegui ir ao cinema, ir à praia sozinha, comer caracóis, bichinho que não comia há mais de 25 anos, porque me fazia muita impressão comer os desgraçados com quem brincava quando era menina. Até caracoleta assada comi, mas não fiquei fã. Prefiro os anões dos caracóis. Só me falta conseguir que o meu filho saia do lugar onde está, se mude e tenha um pouco de paz e harmonia. Essa vai ser a minha grande e batalha final. Se ele estiver bem, eu fico melhor ainda.
Depois fico à espera dos netos, se tiver a sorte de ser avó.
Consegui perceber que para me divertir, não preciso ser rica, nem ter rios de dinheiro para gastar. É tudo muito controlado, com muita parcimónia, porque o dinheiro não cai do céu e mato-me a trabalhar, e se Deus quiser, terei trabalho até ficar velha relha.
Não faço fretes. Se não me apetece ir a determinado sitio, digo que não vou, porque simplesmente não me apetece, porque muitas vezes prefiro ficar em casa, a curtir o sossego, a escrever, ou até a fazer nada. Se não me apetece falar no Messenger, nem o ligo. Se não me apetece responder às sms, não respondo. Telefono depois.
Resumindo, faço o que me dá na real gana, sem me prejudicar nem prejudicar os outros.
Sou grande, compacta, gorda, mas opaca nunca fui. Gosto muito de mim.
Ana T. 1 de Julho 2008
4月3日 A outra e as outrasHá mulheres que nascem com o condão ou "karma", tanto faz, para serem a outra.
Primeiro apaixonam-se sem querer por um tipo que afinal até é casado ou comprometido (questiono se comprometido é um estado civil legalizado), ou se é um estado de alma e coração que faz com que alguém se sinta comprometido, por andar, ou estar, ou namorar com alguém, e leva esse estado intermédio a sério, porque afinal ainda não casou. Até pode nunca casar, nem sempre é necessário andar de anilha no dedo, porque a anilha ou o papel assinado não são um documento que proíba qualquer ser humano de desviar o coração ou pensamento para outra ou outro.
Bem, voltando ao início do malfadado condão, por vezes caímos nas malhas de sermos a outra, porque ele já é de outra, e a outra não sabe que ele tem outra.
Pior ainda é quando ele tem outra para substituir a primeira, a outra que substitui a segunda, e por vezes, ainda outra que substitui a terceira, etc.
Neste contexto, são poligamias escondidas, porque se no nosso país a bigamia já é punível por lei, a poligamia então é impensável.
Afinal não vivemos nas arábias. Embora se pense que os portugueses são machos latinos, (ainda não consegui perceber que tipo de estatuto é esse), começaria por acreditar que a maioria dos homens portugueses tem descendência árabe, nem que seja de quinta geração, e nesse caso o gene da poligamia vive em comunhão total com a testosterona.
E quando uma das outras começa a desconfiar que ele tem outra?
Não há melhor detective do que uma mulher que sente que está a ser enganada.
Nem é preciso ele chegar a casa a cheirar a perfume de outra, ou ter marca de batom algures na camisa, porque felizmente esses vestígios já estão um pouco "demodé". Agora eles trazem outros vestígios mais modernos para casa, e mencionam-se aqui alguns:
- Andam de volta da primeira como se fossem borboletas tontas, acabando por fazer o mesmo à segunda quando existe uma terceira;
- Escondem os telemóveis, e passam a ter os ditos em modo de silêncio e em local perto do seu alcance visual; - Recorrem a excessos de palavreado carinhoso que não era habitual; - Passam "graxa no cágado", neste caso na "cágada"; - Elogiam excessivamente um prato normal, confeccionado de forma normal, num dia perfeitamente normal; - Exaltam as nossas virtudes como se fossemos umas deusas, assim de um minuto para o outro; - Pioram a situação, quando fazem isso à frente de outras pessoas, de forma tão efusiva e desproporcionada, que ficamos incomodadas com tanto exagero; - Vão à rua com a desculpa que o tabaco acabou e olhamos para o maço que está na mesa e ainda está meio cheio. Fazemos de conta que não percebemos e aproveitando o vício do bicho, ainda pedimos por favor para trazerem 6 pãezinhos para casa, para lhe darmos mais tempo para eles fazerem aquela chamada urgente, porque o sangue lhes ferve nas veias. Qualquer desculpa é válida, mesmo que o motivo principal não seja um maço de cigarros; - Usam avidamente a Internet quando não estamos presentes; - Alguns ainda têm a irritante mania do nos dizerem que algo em nós mudou, que não somos as mesmas (possivelmente não somos, quando sabemos que andamos a ser enfeitadas). - Ficam irritados quando falamos com as nossas amigas por sms, porque felizmente existem tarifários com sms à borla e há que saber gerir o nosso gasto com o telemóvel. Aceito mais pistas, por agora só me lembro destas.
Eles são de uma falta de imaginação incrível porque repetem a mesma operação de charme com a outra, e com a outra, etc.
Parece que o cérebro deles foi programado para funcionar só assim. Resultado: todas ficam desconfiadas que algo está errado.
Imaginemos um grupo de mulheres desconfiadas que os seus pares andam a pisar o risco, a pintar a manta noutro lado, a urinar fora do penico, (mijar é feio), e temos um grupo de detectives em acção.
Elas sabem estar atentas a qualquer sinal fora do comum, aprendem a vasculhar as coisas mais pequenas sem deixarem vestígios, nem impressões digitais.
São autênticas CSI caseiras, que certamente o Horatio contratava para integrar na sua equipa.
Mais impressionante ainda, é que elas acabam mesmo por encontrar provas irrefutáveis da traição dos seus pares e as múltiplas facetas que eles encarnam, algumas bem estranhas e tortuosas.
Afinal não era fruto de uma imaginação doentia, como eles insistem em dizer quando subtilmente damos a entender que eles estão para aprontar alguma ou já aprontaram. Argumento fraco para o poder de uma mulher enganada!
Curiosamente, nem todas fazem um escândalo de imediato.
Guardam preciosamente todas as provas, dão corda para eles se esticarem com um à-vontade que os deixa com a sensação de serem homens invencíveis e que as suas primeiras, ou segundas ou terceiras, são umas tontas e não percebem nada, porque só eles são seres cerebrados.
A porca torce o rabo, quando elas, já saturadas, puxam a corda, eles negam tudo com uma desfaçatez impressionante, como se fossem anjos plantados na terra.
O que eles muitas vezes nem sabem, é que a corda está presa aos "tins".
Nessa fase já é tarde para emendar ou remendar as cicatrizes que nos deixam o coração mais frio que um glaciar.
De bestiais passamos a bestas num segundo.
Fim!
Ana T. 2 Abril 2008
2月25日 Serenidade... onde?Como se encontra serenidade no meio da tormenta? Vislumbras raios de sol por entre nuvens negras de floresta queimada? Consegues encontrar um sorriso no rosto duma criança que nada tem, a não ser a si própria? Serás capaz de ver um brilho no olhar vazio dum sem-abrigo? Ou nem sequer tens coragem de olhar para ele e tentar perceber o que vai dentro daquela alma? Há alguma bússola especial que te faça encontrar serenidade no meio de tudo isto?
Se a tens ou se conheces tal bússola, partilha esse tesouro com o mundo.
Porque afinal, já não encontro serenidade no meio de nenhuma das tormentas, umas minhas, outras dos que me rodeiam. Já não sou capaz de olhar para uma criança e procurar-lhe um sorriso, porque o meu sorriso já não lhe basta.
Quando olho para um sem-abrigo, não invento nenhum brilho nos olhos, deparo com uma névoa triste. Perdi a capacidade de orientar a minha bússola para encontrar alguma serenidade. Nego-me a tentar ver cor-de-rosa onde tudo é cinzento-escuro.
Ando pessimista, dirão alguns. Ando cansada, digo eu. Dolorosamente cansada. Cansada de mim. Cansada de tentar ter uma solução para tudo. Cansada de cidades que vivem da miséria alheia. Cansada de olhos vazios, lágrimas disfarçadas. Cansada de amor gasto.
Creio que me gastei e que não tenho mais nada para dar ao mundo.
E quando olho à minha volta, o mundo inteiro espera tudo de mim, quer tudo de mim.
Já não consigo caminhar. Já não consigo saltar barreiras. Já não sou capaz de mover uma montanha para chegar ao arco-íris. Falta-me o ar dentro do peito. Respiro fundo e dói tanto!
Só gostava de ter um sinal, um pequeno sinal que me faça acreditar que posso encontrar alguma serenidade em pequenas coisas. Essas pequenas coisas que em tempos fui capaz de transformar em grandes sorrisos para distribuir.
Ando aos “ais” pelos meus passos.
Perguntas-me o que tenho e respondo que não tenho nada. É isso mesmo... nada! Estou como um saco de papel vazio, amarrotado e jogado fora numa esquina qualquer.
Perguntas se amo. Claro que amo. Mas é um amor sofrido. Um amor que me leva por vezes ao desespero, porque não sei encontrar o teu mundo.
Tens um mundo diferente, secreto, que só tu conheces. Mostras outro mundo, aquele que é mais fácil os outros aceitarem.
O teu verdadeiro mundo, que só cabe dentro de ti, mostras da forma que mais te convém.
Tento entrar e compreender, mas nem consigo entrar para tentar compreender. Repito vezes e vezes sem conta as mesmas coisas, para que tu te lembres. Mas tu esqueces. Porque pensas que não é importante lembrar. Há sempre outra coisa qualquer que te tolda o olhar, que te desvia o pensamento. E de um estado de quase calma, passas a um estado de completo desalento.
Podíamos ter uma vida quase tranquila, mas não temos. Todos os minutos, dias, semanas, meses, há sobressaltos, angústias. Há tempo demais que vivemos assim. São quase 2 anos! Não sei se tenho forças para continuar. Estou profundamente cansada. E tu não acreditas!
Que Deus me ajude! Que Deus te ajude, porque já não sei o que fazer mais para arrancar sorrisos.
Ana T.
2月17日 Feliz Aniversário Luz FrancoMaria da Luz do Espírito Santo Franco Ferreira
Hoje, farias 54 anos. Feliz aniversário.
Tanta coisa ter-te-ia contado este último ano. Tanta coisa tu ter-me-ias contado. Tantas vezes teríamos rido e chorado as duas.
Como sempre aconteceu.
Eras uma mulher enigmática, sensível, cheia de força e frágil.
Soube por acaso, que muito do que desejaste após a tua morte não aconteceu.
Não tiveste tempo para deixares escrito o que pretendias para proteger quem querias proteger.
Agora não estás cá de corpo presente para dizeres "NÃO É ISTO QUE EU QUERO".
Como não estás, os que ficaram fizeram o que bem entenderam.
Tenho muitas saudades tuas.
Lembro-me de ti nos meus momentos de desespero porque tinhas o poder de me tranquilizar.
Lembro-me de ti nas cenas cómicas que passámos juntas.
Lembro-me de nós nos momentos bons e menos bons.
Descansa em Paz e que as Anjos continuem a proteger-te.
Beijo Grande
Ana
17 Fev 2008
11月26日 Crónica de NovembroCrónica de Novembro (A consciência da idade física)
Dei hoje conta que ainda não tinha escrito nada em Novembro. Já ontem tinha pensado nisso. E anteontem também.
Mas como andei meio embrenhada em pseudo preocupações que afinal não eram preocupações, mas sim um medo irracional de engravidar e um desejo tremendo de voltar a ser mãe. Confuso? Talvez não.
Um desejo estúpido de cumprir um sonho tardio, que afinal não deu em nada. Porque afinal tenho quase idade para ser avó (falta o quase). E porque ser mãe aos 46 anos não é impossível, mas é muito perigoso, segundo dizem todos os manuais. Porque afinal só fui mãe uma vez. Não pude ser mãe segunda vez, porque me leram a sentença de nunca mais pensar em engravidar, há 10 anos atrás.
Já me sentia grávida só de pensar, mas por outro lado dizia “não, a natureza sabe o que faz, não podes ser mãe outra vez”. Dei por mim a imaginar que a minha vida ficava virada de pernas para o ar. Não necessariamente pior, mas diferente. Já imaginava nomes e fraldas, choros e biberões a meio da noite, o meu gato a olhar para um ser humano minúsculo, e claro está um “pai-avô” sem saber o que fazer.
Afinal tudo isto para perceber que sim, tenho 46 anos e que a p*** da menopausa chegou um pouco mais cedo do que esperava. A cadência mensal começou a atrasar. Logo eu, que sou “britanicamente” pontual… em (quase) tudo! Acabei por me olhar por pouco mais de um minuto ao espelho e perceber que engordei um bom bocado. Percebi que as minhas oscilações de humor são as mesmas de sempre, simplesmente TPM mensal, mas agora sem pontualidade. Foi a falta de pontualidade que me confundiu.
E acabo o sufoco quando percebo que afinal “não estou grávida coisa nenhuma” e fiquei com uma neura terrível durante 2 dias. (Parece que és parva!)
Depois pensei, que não estou para sentir aquelas ondas de calor horrorosas que tenho de vez em quando há já alguns meses, que me obrigam a parar o que estou a fazer, esteja no trabalho ou em casa. A seguir à onda de calor vêm as tonturas e as oscilações de tensão arterial. Deus me livre! Não estou para isto.
Embora tenha nascido no século passado, já não vivo lá. Comecei a lembrar-me dos horrores que a minha Mãe passou e de outras mulheres que tinham de sofrer placidamente coisas estranhas quando a menopausa resolve dar o ar da sua graça, com aquele ar de gozo a dizer-nos “cheguei minha linda, agora atura-me!”
Nem penses que vou aturar-te!
Felizmente já há milagres como a terapia de compensação hormonal. E possivelmente outras coisas do género. Vou dar-te luta e não me vais vencer.
Lá porque tenho 46 anos não sou velha, nem sequer me sinto velha. Por dentro sinto-me bem mais nova.
Por isso sigo calmamente o curso da Natureza, mentalizo-me que esta é outra fase da minha vida. Mais importante ainda, falarei abertamente sobre isto, por que não estou para cultivar fantasmas.
E venha a menopausa, que cá estarei para olhar para dentro dos olhos dela.
Beijos.
Ana T. 26 Nov. 07
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